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A
literatura paraense é repleta de ilustres representantes,
embora por vezes não tão conhecidos
como deveriam. Por este motivo, periodicamente
estaremos inserindo mais escritores em nossa galeria, para
que você possa conhecê-los.
Nesta página
também constam crônicas e poesias, que temos
recebido de nossos visitantes. Confira!

Nascido
na cidade de Santarém, Ruy Guilherme Paranatinga Barata,
filho de Alarico de Barros Barata e Maria José Paranatinga
Barata, foi uma das maiores expressões artísticas
do Pará.
A
poesia de Ruy Barata é cabocla e autenticamente paraense,
onde ele buscou uma expressão literária autônoma
à Literatura Brasileira.
Sua
inclinação para letras e músicas veio
de sua mãe que, segundo ele, cantava como poucas. Para
perpertuar sua arte passou a seu filho Paulo André
Barata - que foi seu grande parceiro na área musical
- a incumbência de garantir que suas obras não
se vão com o vento.
"Eu
sou de um país que se chama Pará" é
o que diz na letra de Porto Caribe, numa clara demonstração
de amor a terra em que nasceu, viveu e se eternizou.
Ruy
Barata foi, e continua sendo através de sua obra, um
dos grandes encantados da poesia.
Algumas
de suas obras: Anjos do Abismo, A Linha Imaginária,
Violão de Rua, Paranatinga.

Benedito
José Viana da Costa Nunes, nascido em Belém, Pará, no dia
21 de novembro de 1929, filho de Maria de Belém e Benedito
Nunes, aprendeu a ler aos quatro anos de idade e estudou as
primeiras letras na Escola "Sagrado Coração de Jesus", de
uma tia sua, e na casa onde morava - na Gentil Bittencourt,
entre Serzedelo Correa e Presidente Pernambuco, àquela época
periferia da pequenina Belém dos anos trinta.
Passou
a infância entre os livros e as brincadeiras de rua, a adolescência
entre os livros e o curso secundário no Colégio Modeno, a
juventude entre os livros e o curso de Direito, e a vida adulta
entre os livros e as salas de aula. É professor desde a década
de 50. Aposentou-se no cargo de titular, mas continua ensinando
- agora, em conferências e através dos livros que escreve;
nas discussões e através dos livros que empresta a estudantes,
professores, ex-alunos, pessoas que querem ouvi-lo...
Foi
um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, posteriormente
absorvida pela Universidade Federal do Pará. Fez mestrado
na Sorbonne, em Paris. Na sua história pessoal, um nicho especial
para o teatro - ele foi um dos grandes incentivadores da formação
da Escola de Teatro, tanto por ser estudioso da história da
arte, tanto por ser filósofo, como por ser marido de Maria
Sylvia, pioneira, tanto no afeto de Benedito como na direção
de peças teatrais da fase moderna do teatro paraense, que
se inicia com eles e o Norte Teatro Escola, e prossegue com
eles e a Escola de Teatro. O teatro tomou seu rumo, mas Benedito
ficou com Sylvia e a paixão pela arte do espetáculo.
Benedito
Nunes escreve desde menino. Contribuições para jornais colegiais,
depois resenhas e crítica de livros para jornais regionais,
mais adiante resenhas e artigos para jornais nacionais. A
militância da palavra impressa em jornais foi abandonada há
pouco tempo e a enorme massa de escritos só pode ser encontrada
nas bibliotecas, para quem quiser garimpá-las. Mais destacados,
e mais fáceis de serem localizados, os livros, os capítulos
de livros em obras coletivas e os artigos em publicações especializadas.
O primeiro livro foi "O mundo de Clarice Lispector", em 1966.
O mais recente é deste ano: "O Crivo de Papel". De permeio,
livros indispensáveis nos cursos superiores: outro livro sobre
Clarice - "O drama da linguagem - uma leitura de Clarice Lispector";
sobre Osvald de Andrade - "Oswald Canibal"; sobre João Cabral
de Melo Neto - "João Cabral de Melo Neto"; e filosofia: "Introdução
à Filosofia da Arte"; "O tempo narrativa"; "A filosofia contemporânea";
"No tempo do niilismo e outros ensaios"; "Passagem para o
poético (filosofia e poesia em Heidegger); "O dorso do tigre".
Benedito
Nunes mora na travessa da Estrela, no bairro do Marco. O governo
do município mudou o nome dessa rua para Mariz e Barros. Mas
o endereço de Bené continua o mesmo - endereço único e excepcional.
E ninguém erra.

...
E veio o Amor, este Amazonas
fibras febres
e mênstruo verde
este rio enorme, paul de cobras
onde afinal boiei e enverdeci
amei
e apodreci.
Os
versos fortes do poema Travessia I, de 1966, revelam a intimidade
do poeta Max Martins com o jogo de palavras e imagens, matéria
prima da poesia.
Disciplinado,
Max é autodidata. Concluiu somente o curso primário, mas aprofundou-se
no estudo da palavra através da leitura de ensaios, romances
e poemas. Fez parte de uma geração de intelectuais que frequentavam
as reuniões do Central Café, em Belém, lideradas pelo professor
Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o Chico Mendes.
Ao
longo da vida, publicou onze livros que estão reunidos na
Poesia Completa "Não Para Consolar", de 1992, Edições
Cejup.
Hoje,
Max Martins é o maior poeta paraense em atividade. Em entrevista
ao jomalista Tito Barata, fala de vida, poesia e lembranças.
Vejamos algumas partes:
Afinal, o que é a poesia?
Max - Eu não sei, busco saber o que seja. Pergunto
para ela... A poesia é sempre uma dúvida. Começa que a palavra
que a gente tem a ilusão... mente a si mesmo de que a palavra
é a coisa, mas nunca é a coisa. É como diz o mestre zen budista:
Não confunda a lua com o dedo apontando para a lua.
Como você inicia na poesia?
Max - Eu começo na poesia entre
os 14 e 15 anos. Uma poesia nos moldes de então: parnasiana,
bem feita, de acordo com o figurino acadêmico e tradicional.
Depois eu descobri o Modernismo. Eu devo ao [Francisco] Chico
[Paulo do Nascimento] Mendes a descoberta do Modernismo. Um
moleque lá da rua onde eu morava me disse: Eu tenho um professor
[Chico Mendes] no Colégio Nazaré que nos ensina que a poesia
não é obrigada a ter metrificação, rima e versos que fecham
com o poema. Eu refleti e então me danei a fazer poemas modernistas,
que, mais tarde, desaguam no meu primeiro livro "O Estranho",
de 1952, na mesma coleção de "A Linha Imaginária"
de Ruy Barata.
O que te levou a escrever poesia?
Max - Eu acho que sempre, em criança, eu quis me exibir.
Eu tinha inveja dos garotos reunidos na porta da minha casa,
na adolescência, que improvisavam peças de teatro na rua.
E esses garotos se entrosavam bem com as garotas das redondezas.
Eu ficava com inveja, me achando incompetente para representar.
Então eu descobri um poema, dentre os recortes da minha mãe,
de um poeta paraense [Rocha Júnior], meu tio, irmão dela,
que era dedicado à mãe dele. Logo também fiz um, dedicado
à minha mãe, sem metrificação, nem nada. E por aí fui... Eu
ganhei os anos, fiz poemas de acordo com o tratado de versificação
do Olavo Bilac e Guimarães Passos, até descobrir o Chico Mendes
que me apresenta ao Modernismo.
Como você escreve? Você guarda os seus
fragmentos?
Max - Sim. Eu guardo. Eu escrevo com caneta. Uso cadernos,
mas atualmente pego qualquer papel, o que estiver mais à mão.
Eu durmo muito tarde, ou melhor, eu acordo muito cedo, três
da manhã. E não durmo mais porque também é sinal da velhice,
fico sem sono. Mas não me angustio por causa disso. Me angustio
ao fazer o poema, me angustio até fisicamente, fico cansado.
Eu guardo nos cadernos aquilo que eu chamei de Palavras a
esmo. Eu quero que essas palavras não sejam minhas. Um dia,
do meu diário que tem muitas palavras a esmo, imagens a esmo,
que eu não quero minhas, vou retocar, ao acaso, essas palavras.
Então esse meu trabalho de retocar, de reescrever, eu quero
que sejam minhas, que sejam a minha vida. E aí o poema passa
a ser biográfico, mas não biográfico imediatista das minhas
dores de cotovelo ou qualquer coisa.
Por que você nunca quis ser membro
da Academia Paraense de Letras? Você já recebeu convite?
Max - Nunca fui tentado a entrar, embora tenha recebido
convite de alguns acadêmicos. Nunca tive o entusiasmo dos
que queriam me botar lá. A Academia é presa à tradição e eu
sou modernista do princípio ao fim. Não gosto dos princípios
da formação das academias, embora tenham muitos bons representantes.
Essa formação está se modificando, mas não me interessa.
Você trabalha na construção dos poemas
constantemente. Se amanhã uma editora quisesse editar um livro
teu, você teria o material pronto?
Max - O material será uma reedição ampliada do "Não
para consolar" com poemas inéditos. Estou preparando
para lançar.
Estaria pronto um livro inédito para
amanhã?
Max - Eu nunca me apresso, nunca tenho urgência, porque
eu sei para onde eu vou.
Para onde?
Max - Para o mistério da poesia.

Seu
nome lembra emoção, magia, liberdade.
Foi
arquiteta de um mundo de lirismo, que soube em suas crônicas
usar a magia da linguagem do cotidiano (dia a dia).
Os
temas são fatos corriqueiros, banais; lendas do folclore paraense,
entretanto o que mais marca o seu estilo são as injustiças
sociais. Ela defende os injustiçados com veemência, com um
sabor simples e diferente, mas com segurança em seus posicionamentos.
O colorido da linguagem popular e o sentimento se fazem presentes
em cada fato mostrado.
Em
"Aruanda" um passeio pelos caminhos da poesia, onde ela extravasa
simplicidade do sentimento, fazendo um desabafo sobre os acontecimentos
de sua vida. Usou do direito de ser livre, falando aquilo
que sentia com espontaneidade, sem qualquer medo ou constrangimento.
Suas
obras transbordam de lirismo, do amor por sua terra-natal
(Belém-Pará), deixando em suas páginas o perfume do Banho-de-Cheiro
que até hoje empolga a memória dos leitores.
Para
Eneida temos esta definição de João de Jesus Paes Loureiro:
"Eneida
sempre livre
Eneida
sempre em flor
Eneida
sempre viva
Eneida
sempre amor...."
De
fato, Eneida, cobre com o manto da fantasia-lírica, a verdade
nua, dançando com uma linguagem simples e direta, os valores
do real, do concreto, num ritmo ternário, como o balanço gostoso
das redes-de-dormir. Sua linguagem exala o perfume do Pará
e a exuberância das nossas matas virgens.
É nascida
Eneida Vilas Boas Costa de Moraes, cidadã belenense, paraense,
que foi despojada do seus valores patrimônicos (v. de família)
e matrimoniais quando foi fichada nos arquivos policiais e
políticos (muitos anos exilou-se do Brasil), mas soube valorizar
o essencial de sua personalidade, tanto no estilo literário
quanto no estilo de vida.
Além
de arquiteta, fez-se artista da Crônica e do Conto, mostrando
o seu amor por Belém, porque fez dessa cidade a sua mãe, dando
aos seus trabalhos o sabor da terra, como em "Banho-de-Cheiro"
e "Aruanda". "Aruanda" e "Banho do Cheiro" na verdade são
2 livros, mas que se completam, pois intencionalmente, o segundo
é a continuação do primeiro.
Em
Aruanda = é o país que temos dentro do nós; o país da liberdade
e da paz; sem desigualdade nem ódios; sem injustiças ou crueldades;
o país que todos os homens sonham.
Aruanda
= adorada região da paz, de igualdade social, que ficou gravado
na memória do negro brasileiro, que fez este país gigante,
mesmo sendo uma mísera "peça" da propriedade privada (escravos).
No
país do Carnaval (Brasil), Eneida é o símbolo dessa confraternização
Universal (pois o carnaval brasileiro tornou-se uma confraternização
dos povos): vestiu-se de Pierrô e assumiu-lhe o caráter. Não
foi um mascarado vestido de ilusões mas, um Pierrô militante
de uma causa nobre - a justiça social.
Seu
amor centralizou em Belém do Grão-Pará, mas em todo o Brasil
há sempre um toque político, de suas ações; no folclore, no
artesanato popular, e na literatura. Seus comícios estavam
sempre voltados para os movimentos culturais do nosso povo.
Dentro ou fora dos partidos políticos, Eneida sempre continuou
fiel as suas convicções e a si própria. Grande mulher! Sempre
imperturbável, segura, serena, convicta do que fazia e do
que pensava. Prestigiou e foi prestigiada, amada pelo povo
carnavalesco, nos Bailes do Rio do Janeiro, onde como dizia:
"É no carnaval que todas as fronteiras sociais desabam
- pretos, brancos, cafusos, caboclos, todos em confraternização
durante o reinado momesco". E Eneida cantou e vivenciou
o Carnaval Carioca abrindo trilhas fecundas, de ordem social,
política, literária e artística, através de documentários
de jornais, e revistas de várias épocas. Criou o Baile do
Pierrô que conta momentos importantes da vida do Carnaval
Carioca, criando um rico repertório de sambas e marchinhas
para o espetáculo "Carnavália" no Teatro Casa Grande
(1968) Rio do Janeiro. Mas foi para o Rancho e as escolas
do samba que Eneida deu a sua contribuição mais apaixonada.
Desfilou na Acadêmicos do Salgueiro (1984) e fez parte do
seu samba enredo com o tema - "Eneida, Amor e Fantasia" -
mulher que veio do Norte e tornou-se expoente jornalístico
dando glórias à literatura nacional, enriquecendo assim o
nosso folclore, dando-lhe o gosto-gostoso do açaí e do tacacá,
as coisas gostosas, cheirosas do Pará...
0 "Império
de Samba Quem São Eles?" de Belém do Pará, criou para ela
o seu samba-enredo (1973) - "Eneida sempre amor...", na música
de Simão Jatene e a letra de Jesus do Paes Loureiro:
"Com dez metros de saudade
fiz
a minha fantasia
vai
um guizo de tristeza,
na
camisa da alegria
'Quem
São eles', quem foi ela
que
a voz do povo anuncia?
Refrão:
Eneida sempre livre
Eneida
sempre flor
Eneida
sempre-viva
Eneida
sempre amor
Recortei
na lua nova
serpentina
e poesia,
trouxe
a estrela da manhã
confeti
na noite fria
'Quem
São eles', quem foi ela
que
a voz do povo anuncia?
Algumas
Crônicas de Eneida foram selecionadas para o vestibular unificado
2001: "Tanta Gente", "Companheiras", "Promessa
em Azul e Branco" (todos em Aruanda), é uma boa oportunidade
de conhecer um pouco da genialidade desta grande mulher.


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ICOARACI
DA REALIDADE A INSPIRAÇÃO
Profª Renilde Costa
Teu
signo - Escorpião
Nascida de Pinheiro e Livramento
Por Sesmaria a Sebastião.
Mulher
forte, fogosa, voluntariosa,
Jamais te baixaste, enfrentaste
Resoluta as opiniões...
Em
liberdade cresceste,
Do
Paracuri a Ponta-de-Mel
Teus
favos doces, gostosos,
Dulcificaram
teu nome, tua raça e gerações.
Conquistadores
chegaram,
Diante de ti se prostraram,
-
Te trabalharam, exploraram,
E
por teu amor, batizaram
de
Santa - Santa Izabel;
de
Izabel,
de
Pinheiro,
de
Santa Izabel do Pinheiro
de Vila de São João...
Mas,
todos gentis, cavalheiros
Franciscanos, civis
ou coronéis,
Descalços
ou calçados,
Graduados
ou pé-no-chão,
Até
guerrilheiros cabanos
Do
grande líder - Angelim.
Tua
origem é múltipla,
Teu nome é duo também...
De
Sesmaria a Povoado, Província
Te
tornastes - mãe versátil;
E
por lei te transformaste
Em
Vila - Vila Pinheiro!
E no dualismo de tua personalidade
Te concederam a Intendência, por Lei - Nº 712
Ah!
Como Cresceste!
Icoaraci
- "Mãe das Águas"...
Culta,
esplendorosa,
"De
frente para o Sol..."
Hoje, és Mega-Distrito,
Mas, grande sonho acalentas:
Ser Município - grande ambição
E,
já que és mulher, Vila-Sorriso,
Agrada
aos olhos, porque
Tens
alma e coração...
No embalo da brisa matinal
Balançam as castanheiras
As samaumeiras
As copas do mangueiral
As
sarças marítimas se agitam
Sacodem,
salpicam o branco sal
Em
verde chão de limo e alcatifa
Espraiam-se
pelo tabocal
Icoaraci!...
Ah!...
És doce, meiga, nativa
Diante de ti vibro ativa
Embalas meu amor, minha solidão.
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PINHEIRO
Wilson
de Oliveira Souza
(em memória)
A
vida de minha vida. p. 142. 1981
Pinheiro, antigo Pinheiro
Mudaram o teu nome
Agora és ICOARACI
Modéstia a parte, te digo
Falo como amigo
Tua tradição não mudou
Nas praias o teu encanto
No Outeiro o recanto
Sublime do eterno amor
Tuas morenas faceiras
Com seu sorriso bregeiro
E seu olhar feiticeiro
Enfeitam até hoje
Tuas lindas praias
Linda praia do Cruzeiro
COISA
NOSSA
Walter Correia
(Icoaraci, junho/2000)
Você
sabe de onde eu venho?
Eu venho da roça, lá do interior.
Dos mistérios das matas,
De onde se respira o amor.
Eu venho dos igarapés,
Dos jacundás, matupiri,
Farinha d'água, tapioca,
Mandioca, tucupi.
Eu venho do cantar do bem-te-vi,
Da pipira, curió e sururina.
Das noites cheias de estrelas,
Da luz da lamparina.
Eu venho da Ipixuma,
Castanha, tucumã, cupuí,
Gostoso vinho de cupuaçu,
Gostoso mingau de açaí.
Não estranhe meu jeito caboclo,
É que eu venho das roças,
Das entranhas das matas
De dentro das coisas nossas!...
HINO
CENTENÁRIO
Icoaraci
Tem um porte de nobreza
Nossa Vila tem beleza
Tem canto de bem-te-vi.
Icoaraci
Um jardim cheio de flores
Não existem dissabores
Nesta Vila onde nasci.
A criançada
Com sorriso de esperança
Não apagou da lembrança
O que fez pra ser feliz;
Foi escorrega
Foi balanço e correria
Um domingo de alegria
Lá na Praça da Matriz.
A vida passa
Passa e ninguém se embaraça
A Gente é feliz todo o dia sem olhar no calendário!
A nossa Vila
Sem feitiço e sem mandinga
Tem uma rainha que ginga
Festejando centenário. |

O
PINHEIRO QUE EU CONHECI
Wilson de Oliveira Souza (em memória)
Árvore Bendita. p. 19-21. 1984
Recordo
o PINHEIRO de 40 anos atrás, quando o quilo do
nosso saboroso filhote custava seiscentos réis
e a carne de boi apenas dez tostões. Nessa época
me casei e tudo para mim foi tão fácil.
Hoje tenho uma família de dez filhos, vinte e
um netos e um bisneto, gaúcho de nascimento e
erradicado em São Paulo, a quem chamo de Dom
Diego de las Pampas.
Recordar
o PINHEIRO de outrora, é recordar as mangueiras
frondosas da rua Manoel Barata, da Travessa Itaboraí,
entre aquela Avenida e a Terceira Rua, onde morei e
de onde se divisava a fachada da secular estação
da antiga Estrada de Ferro de Bragança, com seus
trens, que às 5:30 da matina, saíam sonolentos,
com sua marcha lenta e monótona, repletos de
passageiros, na sua maioria operários, em busca
de seus empregos, em Belém, donde retornavam
somente à noitinha, utilizando o mesmo meio de
transporte.
Nos
carros de 1ª classe, só viajavam pessoas
melhores trajadas, de paletó e gravata e para
os demais passageiros ficavam reservados os carros de
2ª classe. Nos bondes elétricos, em Belém,
ocorria o mesmo, e nas praias do PINHEIRO, os banhistas
eram obrigados a se vestirem decentemente, ao saírem
do banho, não lhes sendo permitido transitar
pelas ruas, freqüentar bares e tomar assento nos
ônibus em trajes de banho, ou seja de calção.
Havia moralidade e respeiro; medidas impostas pelas
próprias autoridades policiais. Hoje ninguém
respeita ninguém, e nossas famílias vivem
em verdadeiro estado de insegurança, enquanto
as autoridades fecham os olhos para que tudo isso aconteça
impunemente.
Não
importa, vamos falar do PINHEIRO.
Hoje
no Cruzeiro, resta apenas a cruz, símbolo da
Cristandade e ao seu lado, o coreto já não
existe, foi demolido, existindo apenas a sua lembrança,
naqueles que se abrigavam em seu reduto, fruindo as
delícias do amor.
Em
frente ao Avertano Rocha, antiga mansão da família
Tavares Cardoso, há 80 anos passados, foi inaugarada
uma ponte, que ainda hoje existe, recebendo naquele
tempo o nome de Viaduto Antônio Lemos, em homenagem
a esse grande vulto da história política
do Pará e Intendente de Belém. Dessa inauguração,
reservo uma fotografia que doei à biblioteca
do referido colégio, em um álbum com cerca
de cem outras fotografias históricas e dedicadas
à cultura e aprimoramento dos estudantes de hoje.
Nessas fotos vemos a Praça Batista Campos no
ano de 1890, a doca do Reduto, com as embarcações
penetrando com seus "gurupé" nos estabelecimentos
comerciais, como Ferreira Gomes, Casa Minerva e outros.
A inauguração dos bondes elétricos
em Belém e também os remanescentes bondes
puxados a burro, e o seu condutor ficava esperando à
porta do passageiro ou usuário até este
terminar de fazer a barba. Nesse álbum, diversas
fotografias ilustram a passagem das figuras de AUGUSTO
MONTENEGRO como governador e senador; Antônio
Lemos, como Intendente de Belém, como se chamava
na época.
Recordar
o PINHEIRO é lembrar a figura também do
seu antigo administrador o farmcêutico Manoel
Antonio Vasconcelos, que durante 14 anos exerceu as
funções de Agente Municipal, com zelo
e probidade. Cercado de apenas alguns auxiliares, como
o velho JUCA, fiscal geral e ANTÔNIO MUCUIM, ajudante
de fiscal, Custódio Belchior de Araújo,
administrador do Mercado e de um "poleiro"
instalado nos altos do mercado e servido por uma escada
rústica de madeira. Sem assessores jurídicos
e de contabilidade, sem secretárias e sem mordomias,
despachava o expediente normal, mantendo uma administração
profícua e proveitosa e os veranistas estimavam
e elogiavam a limpeza de nossas ruas.
CUSTÓDIO
BELCHIOR DE ARAÚJO, e seu irmão JOÃO
BELCHIOR DE ARAÚJO, foram criaturas que mereceram
os seus nomes perpetuados na história do nosso
antigo PINHEIRO, dando aos relevantes serviços
prestados à coletividade e amor que sempre dedicaram
a nossa pacata vila. É justo pois, que tenham
os seus nomes em alguns de nossos logradouros públicos.
E
porquê esquecer MANOEL ANTÔNIO VASCONCELOS?
Seu nome está esquecido inglória e injustamente.
Vamos pedir somente a Deus por sua alma? Acredito que
não. Vamos dar a um próprio municipal,
o nome desse grande amigo e fiel administrador?
Hoje
do PINHEIRO só existe a lembrança, mudaram
seu nome para Icoaraci. |
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