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Dona
Lucila, a exemplo das demais mulheres indígenas da
Amazônia, trabalhava a cerâmica de forma ritualística.
O barro era extraído dos rios, na Lua Cheia, quando
os espíritos eram evocados, a fim de autorizarem a
retirada da argila da terra. A argila era misturada a cascas
da árvore de caraipé, que, queimadas e trituradas,
tinham o poder de desengordurar a massa. Para esse mesmo fim,
usava-se o chamote - caco de cerâmica queimada e triturada
no pilão.
Na
produção das peças empregava-se o método
conhecido pelos caboclos como pavios (acordelados).
Os pavios se sobrepunham, emendados uns nos outros e, depois,
alisados com um pedaço de cuia. O processo de polimento
(caliçar), usado para impermeabilizar as peças
e lhes dar acabamento brilhante, era feito com semente de
inajá, fartamente encontrada na região.
Para
efeito de decoração, na época de Dona
Lucila, não eram comuns as técnicas de incisão
e excisão, características da cerâmica
marajoara. Explorando motivos florais, os ceramistas utilizavam
o engope - argila líquida de diferentes colorações,
aplicadas sobre a peça úmida com uma ponta de
capim amassado, que fazia as vezes de pincel.
A
queima era um ritual à parte. A mulher não podia
estar menstruada ou comer farinha durante o trabalho: acreditava-se
que isso interferia no processo da queima. Já bem seca,
a peça era queimada durante a Lua apropriada, a fim
de reduzir os riscos de rachadura ou quebra. A queima, geralmente,
se fazia à noite, para evitar os efeitos do calor e
dos ventos, e longe dos olhos de pessoas estranhas, pois isso,
acreditavam os ceramistas, poderia prejudicar o resultado
final.
Durante
a queima, as peças eram colocadas de boca para baixo,
sobre uma camada de pedras e queimadas lentamente, a céu
aberto, ao fogo de gravetos e cascas de árvores. A
impermeabilização da cerâmica se fazia
no momento da retirada das peças do forno. Ainda quentes,
elas eram untadas, por dentro, com jutaicica - a goma vegetal
extraída do jutaieceiro, árvore muito comum
na Amazônia.
A
jutaicica é largamente usada como impermeabilizante
nas tribos indígenas da Amazônia. Em contato
com a chuva, o calor e vento, esse material endurece, tornando-se
brilhante e transparente. "Com a destruição
das florestas próximas da vila já se torna praticamente
impossível usar tintas vegetais e outros produtos extraídos
da mata", lamenta Mestre Cardoso. "As árvores
milenares do jutaiceiro foram quase todas dizimadas",
denuncia o artista. |
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