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O
Distrito de Icoaraci, é o maior centro produtor e divulgador
da cerâmica indígena amazônica. No centro
do distrito fica o bairro do Paracuri, onde se concentram
cerca de 90% da comunidade de ceramistas. São inúmeras
oficinas e olarias, alinhadas uma ao lado da outra, por toda
a extensão do bairro.
No
distrito e arredores existem grandes quantidades e variedades
de argila em cores e texturas diferenciadas, o que provavelmente,
explica a milenar tradição da cerâmica
local. Uma tradição que, aliás, se reporta,
em alguns aspectos, à cultura indígena, que,
na origem, se transmitia de mãe para filha e, contemporaneamente,
é passada de pai para filho. Mas a importância
da mulher no processo de produção de cerâmica
se mantém: enquanto os homens cuidam da fabricação
de peças no torno, elas se encarregam da modelagem
manual e acabamento, com texturas diferenciadas. Algumas vezes,
participam da queima das peças.
Até
os anos 60, em Icoaraci se produziu a cerâmica de olaria
- telhas, tijolos, alguidares, potes e filtros, entre outras
peças. Antes, havia apenas dois ou três ceramistas
fazendo trabalhos artísticos. Entre eles, o "Cabeludo",
que retratava pessoas no cotidiano.
Ao
chegar a Icoaraci, portanto, Mestre Cardoso resgatou a arte
marajoara, a qual apenas muito mais tarde os artistas da região
iriam aderir.
Quando
começou sua pesquisa no Museu Paraense Emílio
Goeldi, despertou nos artistas locais o interesse pelo resgate
das culturas cerâmicas amazônicas - marajoara,
tapajônica, santarena, etc. Mestre Cardoso atraiu a
atenção dos moradores de Icoaraci pela reação
positiva dos turistas e conseqüentemente retorno financeiro.
Nos
anos 70, finalmente, verificou-se em Icoaraci o começo
de uma fase de grande produção de réplicas
imitando o estilo das obras pertencentes ao Museu Goeldi.
As obras mais reproduzidas foram as marajoaras e tapajônicas,
por serem ricamente ornamentadas com cores, incisões
e excisões próprias dessas culturas. "Na
febre de reprodução, perdeu-se a preocupação
com a fidelidade em relação aos originais, simplificando-se
a forma e o riscado, para facilitar a produção
em série e o atendimento à demanda",
conta Mestre Cardoso. Segundo ele, pessoas que jamais se dedicado
à cerâmica montaram oficinas de reprodução,
a fim de ganhar o sustento da família.
A
industria da cerâmica sob encomenda compartimentalizou
a produção. De tal maneira que uma mesma peça,
reproduzida em série, era feita por várias pessoas:
uma modelava, outra engobava, outra, ainda cuidava do riscado
e uma última cuidava da queima, perdendo-se, assim,
a unidade/criatividade da obra.
Recrutados
pelos intermediadores, levados para outras cidades, esses
"industriais da cerâmica" desestimularam a
ida de eventuais compradores à Icoaraci. Pior, produzidas
às pressas, sem o devido tratamento, muitas peças
exportadas chegavam inteiramente destruídas ao seu
destino, afastando os tradicionais compradores.
Mas
o mecado, ele mesmo, tratou de expurgar os falsos artistas.
Em Icoaraci sobreviveram apenas aqueles que, como Mestre Cardoso,
honraram a própria arte. "Acho que a defesa
da cultura original vem de uma didática, de um ensinamento
nas escolas sobre o que é a nossa cultura. O artesão
precisa conscientizar de que vendendo qualquer tipo de vaso
para um turista, passando por marajoara, está vendendo
uma falsa imagem da nossa cultura", adverte Cardoso.
Hoje,
existe uma cerâmica tipicamente icoraciense, altamente
consumida pela população local, que junta os
traços indígenas milenares os motivos florais
estampados em vasos modelados com as formas tradicionais da
cerâmica amazônica. Os desenhos retratam o Sol,
a Lua, montanhas, rios e outros elementos que o indígena,
embora em contato direto coma natureza, jamais reproduziu
em seus trabalhos.
"Os
marajoaras estampavam nas cerâmicas objetos e seres
de seu convívio diário de forma muito estilizada.
Nenhum artista moderno faria com tanta criatividade",
diz Mestre Cardoso.
No
acabamento das peças agora produzidas, curiosamente,
entretanto, se mantêm as bordas típicas das genuínas
peças marajoaras. O resultado final é um híbrido,
que nada tem a ver nem com a arte indígena nem com
a cerâmica artística que hoje se produz no país.
Isso, para uns, representa a descaracterização
da cultura original; para outros, enseja o surgimento de uma
nova escola de arte cerâmica - a cerâmica icoraciense. |
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